Wednesday, February 26, 2025

Vougas, Sharpies e Andorinhas - Os Clássicos da Vela Portuguesa (1)

 

Os Clássicos da Vela Portuguesa

 1- Os Vougas


 O que é um clássico ?

      Cannes, 2022, regates royales ( foto h. ventura)

Não é simples a definição do que é um barco “clássico”, mas não podemos correr o risco de contornar ou evitar a questão.

De um modo geral considera-se clássico um objeto que se identifica claramente com o tipo a que pertence, correspondendo a determinado período de tempo e que apresenta características construtivas e estéticas de elevada qualidade.

Será um objeto ou artefacto atrativo, que permanece ao longo do tempo preservando as suas características originais, com frequência atingindo valor emocional e simbólico.

Na evolução dos tipos e modelos dos barcos de regata ou de cruzeiro, seja por motivações estéticas, de disputa competitiva, ou de desenvolvimento económico e tecnológico, estes barcos, agrupados em “classes” foram quase sempre evoluindo e inovando, processo este que foi criando um volumoso e significativo património.

No caso dos Vougas, denominação criada para identificar os barcos de António Gordinho “redesenhados” pelo Sport Algés e Dafundo para a criação da Classe Nacional Vouga,  (1939), posteriormente reconhecida pela Federação Portuguesa de Vela (1944), a identificação de um Clássico da classe Vouga revela-se a meu ver, relativamente fácil.

Em primeiro lugar podemos identificar praticamente todas as embarcações que ainda existem, construídas segundo processo construtivo tradicional, respeitando determinados parâmetros e medidas.

Em segundo lugar podemos localizar no tempo a sua génese e desenvolvimento, que ocorreu desde os anos 30 na Costa Nova, Ìlhavo, até ao estuário do Tejo, e ao Norte do país, perdurando e mantendo a sua presença navegando por toda a Ria de Aveiro, sobretudo na Costa Nova, onde se manteve uma frota ativa até finais do séc XX.

 E em terceiro lugar porque o Vouga foi construindo, com a sua presença e performance náutica ao longo de sucessivas gerações, uma prolífera narrativa de sucesso lúdico-desportivo, cujas micro-histórias se inscrevem no imaginário coletivo, consubstanciando um raro factor identitário na náutica de recreio.

Portanto, no processo de redesenho e modernização da classe Vouga rumo a uma monotipia desejável e necessária * não podemos nem devemos ignorar e de modo algum limitar, e relevar para segundo plano as embarcações “Clássicas”, que refletem a evolução desta classe e constituem rico e único património.

É pois importante e pertinente que se criem as condições para que estas embarcações e este património persista e continue a navegar e a regatear, com a dignidade que um clássico com esta importância merece.

Sendo a APCV- Associação Portuguesa da Classe Vouga, a entidade que regulamenta e organiza a inserção da classe Vouga junto da comunidade náutica, sendo para isso reconhecida e mandatada pela Federação Portuguesa de Vela, e sendo a atividade desportiva e competitiva a principal razão de ser desta embarcação, torna-se evidente que compete à APCV contemplar, no seu regulamento técnico, ** o conceito e definição de “Vouga Clássico” assim como criar condições para que nas regatas de Vougas estas embarcações participem de pleno direito e com estímulo competitivo.

O que me parece obvio, pelo processo construtivo, pelo que representa em termos evolutivos da vela portuguesa e pelo elevado grau de atratividade e beleza, sem descurar a "performance" náutica e competitiva", os barcos construídos até 1980 constantes da lista de Vougas do Regulamento da APCV, deveriam ser na sua totalidade considerados "Vougas Clássicos", e poder-se-iam replicar, desde que as réplicas fossem réplicas exatas, obedecendo com rigor ao processo construtivo, ás linhas geométricas e ao aparelho vélico. Para eventuais novas construções poder-se-ia definir o projeto Brigada Naval, aquele que historicamente maior número de embarcações produziu, como projeto a ser contemplado.
Deste modo, poder-se-ia criar uma interessante dinâmica no recrudescimento da arte da carpintaria naval segundo técnicas tradicionais, *** preservando saberes e afirmando este pequeno cluster dentro da economia Azul, não colocando em causa a evolução da classe Vouga rumo ao futuro, que será sempre um futuro em construção permanente, com novas técnicas e novos materiais, que permitem uma produção de embarcações em elevado número e por valores acessíveis para poderem equipar as escolas de vela, lugar onde se formam aos futuros nautas e velejadores. 

* A monotipia é a característica das classes de vela que reconhecem apenas um tipo e um modelo de embarcação como elegível na classe. Até ao momento, e por razões de contexto histórico decorrente de diversas embarcações denominadas Vouga, a APCV reconhece como Vougas três distintos modelos de embarcação: O Vouga Brigada Naval, o Vouga Mestre A. Gordinho e o Vouga Mestre Alberto. ( Oficialmente -Vouga Brigada Naval - Vouga Costa Nova- Vouga Ria Marine)
** O regulamento Técnico da APCV está em revisão, com o objetivo de formalizar apenas um modelo de "Vouga". Este objetivo justifica-se pela necessária inserção da Classe Vouga no mundo da Vela, inclusive a nível internacional. Também porque tornará a classe mais popular e acessível, espera-se. 
*** Não podemos ignorar neste processo a afirmação da carpintaria naval tradicional como fator estratégico para a afirmação da Região de Aveiro. A elevação do barco moliceiro e da carpintaria naval tradicional a Património da UNESCO, a dinâmica da Comunidade Intermunicipal sobre este tema, sobretudo Estarreja e Murtosa, que,  ao fomentarem, com a FOR-Mar, cursos em carpintaria naval, permitem-nos uma leitura construtiva e otimista em relação ao futuro.

                                           
Cannes, 2022- Regates Royales ( foto h. Ventura)


Ovar, 2022- Regata Cenario ( foto H. ventura)



Wednesday, February 19, 2025

Um Snípe de Ílhavo...

 As atividades na CENÁRIO não se resumem apenas aos encontros em redor de boas conversas e boas "palamentas" comensais, ou passeios em águas abrigadas, ou encontros e fomento da carpintaria naval, em tertúlias de maior ou menor afluência, de maior ou menor pertinência. Se a carpintaria naval hoje, é tema importante das agendas políticas da CIRA, muito deve a este grupo de entusiastas que desde o ano de 2002 se lança na aventura de recuperar barcos de madeira. Não construímos de novo, salvo raras exceções, restauramos, recuperamos devolvemos património a uma atividade que nos rejuvenesce e recupera para a vida. A nós e aos barcos, tema de futuro.

A nossa mais recente atividade de restauro tem um significado especial, pois o proprietário acalenta uma paixão pelos barcos alicerçada em gerações de "Homens do Mar", daqueles que sabem e vivem ainda, a epopeia das  pescas... e do bacalhau. 

Trata-se do restauro profundo de um "Snipe, embarcação de regata já antiga,  não sabemos quanto) que se encontrava em mau estado mas ainda digno, apesar de alterações absurdas de foi foi alvo algures em tempos mais recentes. Presume-se que tenha sido construído em Vigo, mas velejou e muito pelas águas da Ria, sobretudo na Costa Nova e agora, na CENÁRIO, rejuvenesce, renasce.

Eis de seguida algumas fotos do processo, que se encontra neste momento em fase de acabamentos do casco, faltando ainda um mastro novo, retranca, leme retrátil, etc, etc...

Desde Novembro, até hoje, de modo mais ou menos intermitente, avançam os trabalhos. Hoje colocámos o quebra-mar e lixamos verniz...


                                                  








                                                  























Thursday, February 06, 2025

A sulcar a Ria - o mantra dos Canais - parte 2

 Ir a Aveiro e voltar, um outro dia de viagem, uma nova digressão ou antes diversão, ou até uma persistente fixação de descoberta daquilo que já foi feito vezes sem conta. Há muitos anos, primeiro era o sal, o peixe, sempre as pessoas, mais recentemente o caulino, as pedras, o vinho... num vai e vem constante entre aveiro e Ovar na carreira da "Barca de Ovar". Mas desta vez o que nos levava e trazia a Aveiro eram os barcos. Antes veículos ,objetos, agora os protagonistas. Barcos, para Exposição "Sulcar a Ria" . ( Veja-se postal anterior)


E como já passou algum tempo desde essa heróica-diminuta façanha, detalhes da viagem serão omissos, mas mesmo assim devemos referir que zarpámos do cais do Puxadouro de manhã por volta da 9 horas e trinta, uma manhã serena e calma, embarcados no "Aventura", com o motor Suzuky HP5 sempre a girar, pois vento era coisa pouca até S. Jacinto... A missão constava de transportar o "Aventura" para a exposição, onde estariam outros dois Vougas, o "Sofia" modelo mestre Gordinho, e o "Beatriz" , modelo Mestre Albeeto Costa, ficando a trilogia completa com o modelo "Brigada Naval"- o "Aventura"- cuja autoria se esvanece no processo evolutivo da classe Vouga nas década sde 50 e 60 do sec XX mas cujo restauro se deve ao laborioso e prolongado tempo de gestação da CENÁRIO entre 2002 e 2005.

Mário, Carlos e o escriba... saindo do cais do Puxadouro

E no Canal de Aveiro

O regresso a Ovar , após um prego no Rossio, no sítios onde se comiam pregos com "ovo a cavalo", ocorreu passando a eclusa, já mastraos descidos e as embarcações em simbiose, longos mastros na horizontal, uma tarefa e um conjunto de riscos que assumimos correr, assim é a vida de nautas amadores, mas cultos e sabedores, sem temores ou cautelas paralizantes.


e lá vamos nós... por dentro até ao bico da Murtosa.


No regresso, transportando e navegando a bordo do vouga "Vouga" (é mesmo assim) rebocando o andorinha "Melody", subindo pelos "labirínticos e surpreendentes " canais do baixo Vouga até ao cais do bico da Murtosa, Pousada do Muranzel à vista, e daí até ao Carregal, em Ovar.

 E foi assim que aconteceu, devemos apenas realçar a originalidade do " combóio de embarcações de mastros pendentes", penso até que inscrevemos mais um modelo de embarcação na fervilhante criatividade das águas de Aveiro, apesar de sabermos que na circunstância de condições adversas o bom senso aconselha que esta criatividade fique quieta e resguardada no cais de abrigo, no porto seguro... longe de águas agitadas.


Longo foi o dia, descer mastros, subir mastros, ultrapassar duas vezes a eclusa, tatear fundos e optar pelo rumo, certo ou incerto, disto e muito mais se trata quando percorremos o mar interior de Aveiro, rumo aos mares vareiros do Rio de Ovar. 




Passando junto á Pascoal... na ida.

                            O vouga "Vouga" no seu repouso, no Grande Canal, ou seja, em Aveiro.




                                                  
E os vougas no seu sítio
                                        
E o regresso que se inicia, junto ao Sal d`Aveiro
Não sem antes testarmos a estabilidade da embarcação...
Progredíamos em águas amplas, finalmente.


A chegada a Ovar, no carregal, e o pior aconteceu... Uma dolorosa queda pois um dos bravos marinheiros calculou mal o salto na atracagem, nada fraturado, mas um hematoma que mais pareciam dois e duas semanas de imóvel repouso.
Ossos do ofício, é no regresso já perto da base que os alpinistas sofrem mais acidentes.

A 18ª Sinfonia de Clássicos da Vela Ligeira na Ria de Aveiro

 


"Ou do Rio de Ovar"


Realizámos a 18ª Regata CENÁRIO nos dias 28 e 29 de Setembro de 2024, um fim de semana em que as condições meteorológicas se revelaram excelentes para a prática da vela ligeira.

Envolvidos no evento estiveram velejadores, elementos nos barcos de apoio, júri de largadas e chegadas, elementos na organização e na logística, as associações NADO-Náutica Desportiva Ovarense e Associação Náutica da Torreira, Associados e amigos da CENÁRIO no transporte de embarcações e no transporte dos velejadores entre a Torreira, Ovar e Válega, a comunicação social, nomeadamente o Diário de Aveiro, e tivemos o apoio da CIRA e da Câmara Municipal de Ovar.

Ainda, estiveram envolvidos no apoio à regata ex-formandos do Curso de Carpintaria Naval que ocorreu em Pardilhó, Estarreja durante 2023.

Obtivemos a participação de 9 embarcações clássicas, e outras acompanharam as regatas, envolvendo um total de 32 velejadores, oriundos de diferentes locais como Porto, Espinho, Ílhavo, Torreira, Ovar e Estarreja.

 

As embarcações inscritas representaram as classes de vela “Vouga”, “Andorinha”, “Sharpie 12M”, “Moth”, “Cap Corse”, “Sunfish”, e ainda uma embarcação de Cruzeiro dos primórdios da vela de recreio da ria, cujo modelo data de 1949, construída em meados dos anos 60 e que esteve presente na Exposição “Sulcar a Ria” organizada pela Câmara Municipal de Aveiro no âmbito do evento “Aveiro Capital Portuguesa da Cultura”.


Dia 28, Sábado

Ovar

Após terminado o período de inscrições, a Largada ocorreu junto ao cais da Pedra, no Carregal, em Ovar, com a colaboração direta da equipe da NADO nos procedimentos de largada e esta 1ª Regata terminou na Torreira em frente ao café-esplanada “Guedes” com a colaboração direta da ANT na obtenção dos tempos de chegada de cada embarcação.

Terminada a regata e amarrados os barcos na nova Marina da Torreira, gerida pela ANT- Associação Náutica da Torreira. Deslocaram-se os velejadores para Ovar em transporte providenciado pela Escola de vela da NADO- Náutica Desportiva Ovarense. Seguiu-se um lanche coletivo nas instalações da CENÁRIO, no cais do Puxadouro em Válega, onde se encontrava ancorada uma frota de veleiros da NADO e respetivas tripulações que se tinham deslocado até ali, acompanhando a regata até à Ponte da Varela, circunstância esta que proporcionou um belo espetáculo de cerca de duas dezenas de embarcações a velejar. O aspeto social do momento é o que devemos realçar, reforçando laços de amizade e de espírito coletivo em torno da náutica de recreio. Os velejadores dos pequenos cruzeiros e algumas famílias pernoitaram a bordo das embarcações e as instalações da CENÁRIO estiveram disponíveis para maior comodidade.

 


  

 

Dia 29, Domingo

Torreira

 Após a preparação das embarcações iniciaram-se os procedimentos de largada pela equipa da ANT, junto ao Cais dos Pescadores, com a linha de largada colocada entre o Cais dos Pescadores e a esplanada do “Café Guedes”.

Com vento suave mas firme soprando do quadrante oeste deslocaram-se as embarcações rumo ao cais da Tijosa, em Ovar, passando pela Ponte da Varela, ao largo do Bunheiro e da Ribeira da Aldeia em Pardilhó.

Após passarem a Ponte da Varela cruzaram-se as embarcações em regata com os cruzeiros e lanchas que regressavam desde o Cais do Puxadouro para a Marina do Carregal, facto que proporcionou um outro momento alto do evento, presenciado por alguns visitantes que observavam do cimo da Ponte.

Cruzada a linha de chegada alguns veleiros deslocaram-se para o Cais do Puxadouro, a sede da CENÁRIO onde ocorreu a cerimónia de entrega de prémios.

E no dia seguinte e nos que se seguiram, foi a habitual azáfama de regresso ao repouso, arrumar e limpar barcos, velas, e fazer os balanços necessários para que no próximo ano se possa realizar um evento ainda melhor.

  

Classificação Geral

1º Lugar , Vouga “Calipso” com Miguel Lopes, Miguel Tavares e João Loura ( na foto está o Francisco…)

2º lugar – Vouga Aventura, com Rui Carreira, Alexandrina Valente e Carlos Aguiar.

3º Lugar – (Não esteve presente) Sofia Alçada e Cristina Alçada, em Sharpie 12

Classificação Classe Andorinha

1º Lugar ( Campeões Nacionais !), na foto 3- Nuno Costa, Angelina Valente e Francisco Providência Morão.