Saturday, February 26, 2022

Novos rumos, rotas antigas.

 "Viam-se os canais da ria, de madrugada, no pino do inverno, com a canoa a avançar como um fantasma até perto dos patos adormecidos, cortando a crosta do gelo à flor da água. Misturava também memórias de infância do meu pai e da minha mãe, com as grandes merendas familiares em Outubro, lá para o sul, perto das pateiras, numas grandes covas ovais de areia finíssima, cercadas pela mata misteriosa, e que agora já não se encontram. [...] Tudo isto numa velha casa um pouco em ruínas, lá para os lados da Ribeira, longe de tudo."


«Mudar de Vida», 25 anos depois...», João Semana, 15 de Abril de 1991.


Nesta geografia  orgânica, de compostos flutuantes e águas correntes, canais e ribeiros estruturantes do território aquamórfico, reticulado labirinto entre canízias sobre areias submerssas e lodos inconstantes, percorrem-se linhas de sedimentação de ideais, na interpretação do meio ecológico onde nos situamos e decidimos ancorar a vida , vida esta cada vez mais vivida em substratos de mobilidade colorida e mutante. O desafio é assentar uma construção, mesmo que efémera, e, com este gesto fundador, reiniciar o processo. Experimentamos uma metamorfose em movimento? Importa deixar marcas, referências, que consubstanciem o caminho. O fio de ariane importa cada vez mais.

Na Cenário ocorre uma residencia artística de Afonso Marmelo *, que com um amigo experiemntaram uma viagem simples, entre o cais do Puxadouro a Ribeira e de volta ao Puxadouro. Pelo caminho, lutaram com os elementos, ( com eles próprios?) e consolidaram uma ideia de sítio. Sítio no sentido de LOCUS, de local onde decidimos assentar o "acampamento".

Descer o rio Caster, da Ribeira à foz, transportar a canoas  "em braços", romper silvados e ultrapassar obstáculos, de tudo um pouco ocorreu nesta "aventura", uma descoberta.

 H. Ventura


partida Cais do Puchadouro
hora de partida 11h30
Seguimos pelo braço da ria à aventura. O Pedro não tinha qualquer experiência prévia de navegação, eu tinha apenas a experiência da minha regata com a cenário e de uma viagem em canoa na lagoa das sete cidades, nos açores. Entre o tempo de acertarmos as nossas remadas e a força da maré, demoramos 1h30 a dobrar o cabo entre o cais da tijosa e cais do torrão. Após o esforço inicial pudemos navegar mais tranquilamente a favor da corrente até à nossa paragem.

paragem Casa Moita do Padeiro
hora de chegada 13h30
Chegamos através de um pequeno canal que terá sido usado em tempos pelos habitantes da casa. Atracamos o barco num pequeno cais em ruínas ao lado da mesma. A nossa intenção era fazer uma pequena visita a esta casa, e, ainda a uma outra mais afastada, em ruínas, mais modesta, e que, pelo aspecto da construção, parece também ser mais antiga. Por causa do desgaste físico da nossa viagem a remos decidimos explorar a pé o caminho até à segunda casa. Porém, com a maré já a descer e as dificuldades de acesso do caminho, por volta das 14h30, resolvemos voltar para trás. O receio prendeu-se com a incerteza do tempo que demoraríamos a regressar, que, tendo em conta o tempo anterior, justificava-se. 

Com os braços doridos, optamos por experimentar uma rota diferente e mais curta para voltar ao ponto de partida. Seguimos pelos canais estreitos à volta da casa até chegarmos ao fim dos mesmos. Aí, pegamos no barco à mão e passamo-lo do canal da ria para o canal da foz do cáster que intersecta a ria de aveiro. A partir daqui tivemos a maré a nosso favor, mas a quantidade de ramos e braços de árvores no nosso caminho dificultaram a passagem. A certo ponto, encontramos um tronco a interromper o canal; confrontados com esta adversidade saímos do barco para as margens, e, com cuidado para não cairmos à água, levantamo-lo com as mãos e passamo-lo para o outro lado. Esta foi talvez a parte mais entusiasmante e aventureira da viagem. Todos sabemos quão lindas são as paisagens da ria de aveiro, e, a beleza da interseção da foz do cáster com a ria de aveiro somada à fantástica sensação de navegar estas águas, foi não só uma recompensa ao nosso esforço, assim como um tónico para reunirmos as forças necessárias rumo ao nosso regresso.
chegada Cais do Puchadouro
hora de chegada 16h10

"Ria de Aveiro. Céu e água. Mar, sol e sal. Moliço também."













Roteiro e fotos: Afonso Marmelo, inserido no Projeto "Reino Escondido"


* nota biográfica | afonso marmelo
Porto, 1995. Licenciado em Tecnologia da Comunicação Audiovisual pela Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo. Desde 2014 tem colaborado em projectos com diversas instituições como a Casa da Música, assim como produtoras de cinema como Ukbar Filmes, Terratreme, entre outras. Tem trabalhado também como assistente de artistas portugueses como Salomé Lamas ou Rui M. Xavier. Para além do seu trabalho em Cinema e Televisão, desenvolve, igualmente, um percurso na área da fotografia e das artes visuais.




Friday, December 17, 2021

AS ANTIGAS CLASSES DE VELA E A ECONOMIA DO MAR - proposta de comunicação para o Congresso da Vela 2018. ( foi cancelado)

 

Cais do Puxadouro, 2021
                                                                           Cannes, 2021

 "As classes de vela"

Origens

O desenvolvimento e evolução do desporto da vela assenta, entre outros fatores, na evolução dos tipos de embarcações destinadas à prática e à competição. Esta evolução resulta de uma constante inovação em busca de melhores desempenhos, cujo limite decorre do desenvolvimento e evolução tecnológica de cada época.

Ao longo do último século e no decorrer deste em que vivemos, tal processo evolutivo aliado a uma crescente popularização do desporto, materializou-se num grande número de modelos de embarcações que se organizam segundo “classes” ou parâmetros técnicos precisos.

Contexto

Deste processo, eminentemente pragmático e funcional, resultaram sucessivos tipos e classes de embarcações de dimensões e aparelhos vélicos diferenciados, ora destinados à iniciação e aprendizagem nas escolas de vela ora destinadas a alta competição, e em cada país se faziam experiências e se propunham modelos, num processo também ele competitivo, procurando conquistar a preferência dos velejadores e dirigentes do mundo da vela. As competições olímpicas determinaram em grande escala, esta evolução.

 Potencialidades

Da busca da velocidade sob a ação do vento, ou decorrente desta, nunca esteve ausente a componente estética, a busca da beleza e da elegância, a criatividade e inovação e podemos afirmar com convicção que estamos perante uma arte, a “Arte dos Barcos”.

Com o passar do tempo, as embarcações das antigas classes de vela vão entrando em desuso, vão sendo naturalmente ultrapassadas pelas mais recentes e vão abandonando a competição, apesar das suas qualidades marinheiras e do seu esmero técnico e construtivo.  Mas, as embarcações das antigas classes de vela constituem um notável património cujo potencial deverá ser equacionado numa estratégia de desenvolvimento da vela, mas onde as componentes, cultural e identitária podem constituir um novo paradigma, próximo dos conceitos das novas museologias.

Cultura

 Desta evolução cultural faz parte a História, e será também nosso dever registar, divulgar promover as inúmeras histórias que se desenrolam em redor da Vela, desporto onde o imaginário, condicionado fortemente pelo meio onde se desenvolve, produz.

Parece evidente que com este património poderemos produzir mecanismos que captem novos velejadores, de diferentes faixas etárias e de diferentes contextos sociais e económicos, fazendo crescer a comunidade náutica na diversidade, promovendo a evolução cultural.

Pedagogia

É com base nestes patrimónios e numa narrativa do conhecimento assente na história recente que podemos incluir a vela nos currículos escolares, complementando a prática desportiva. Sabemos que nem todos os velejadores na iniciação serão campeões olímpicos, mas só com uma base alargada de praticantes poderemos formar esses campeões. Essa base alargada de praticantes, que deve incluir faixas etárias avançadas (a população está cada vez mais envelhecida) irá com certeza continuar a praticar vela, constituindo assim uma verdadeira comunidade náutica. E como podemos equacionar o desenvolvimento de uma economia do Mar sem uma comunidade náutica culturalmente evoluída?

Território / Descentralização

Em Portugal, se excetuarmos alguns trechos da costa algarvia, os estuários e águas abrigadas navegáveis adequados à vela ligeira não são muito numerosos, e mesmo os que existem apresentam por vezes condições difíceis para a prática da vela. Neste contexto, a Ria de Aveiro durante grande parte do século XX constitui um espaço de exceção, onde o desenvolvimento da vela e mesmo a criação de embarcações originais ocorreu. Consistentemente, classes como os Vouga, Sharpie 12 M , Andorinha, Vaurien, Snipe  sempre navegaram nestas águas e aqui se formaram centenas e centenas de velejadores, alguns deles ainda hoje e ao mais alto nível confirmam a Escola de Vela que ali se produziu e onde os clubes tiveram papel determinante.

A Ria de Aveiro, com os clubes náuticos que ali se formaram podem constituir um cluster de desenvolvimento da vela alicerçado na “arte dos barcos”, reutilizando as classes mais antigas ao nível da aprendizagem e no início à competição. A ria de Aveiro, apesar das condições de navegabilidade agora difíceis e complexas, é o território de excelência para a vela ligeira, que não necessita de águas profundas.  Temos a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro atenta ao que se desenvolve em redor do património náutico e naturalmente já captámos o interesse dos municípios que a constituem, para esta temática.  

Comecemos então pelas embarcações, os Sharpies, Vougas e Andorinhas…

 

Ovar, jan 2018

 Helder Ventura

Friday, November 12, 2021

De Leixões a Caminha e Volta





 Quem já velejou em Andorinha com vento rijo e ria encapelada ao largo do famoso Mar da Torreira, entre o Muranzel e a Bestida, sabe que o "Andorinha aguenta muito mar..." Tambem sabemos que era frequente um senhor de Leça aos domingos, velejar até à Póvoa e voltar a Leça, no seu Andorinha, fazendo assim o seu passeio domingueiro. E sabemos que o andorinha de Pedro Martins Pereira "SAKUTUTU" foi transportado de Leça até à Costa Nova pelo mar... lá por finais dos anos de 1960.  Mas não sabíamos até ontem, que o sr. Guilherme de Azevedo viajou, entre Leixões e Caminha e volta... no verão de 1938. 

O Sr Guilherme Pereira de Azevedo impulsionador da criação da Classe de Vela Andorinha em Portugal, velejador e apaixonado pela náutica de recreio e pela competição, Sócio do Sport Club do Porto e um dos sócios fundadores do Clube de Vela Atlântico, (1944), representa muito do espírito Romântico que caracteriza o final do séc XIX, espírito este que contaminou e fez explodir a modernidade no séc. XX. Ao que tudo indica construiu o primeiro Andorinha em Portugal com planos fornecidos pelo Clube Náutico da Corunha. Com esta embarcação, no verão de 1938 percorreu a Costa Atlântica entre Leixões e Caminha, e de volta a Leixões, demorando na viagem nove dias, sendo que o quinto dia, em Caminha foi dedicado ao passeio pelo Rio Minho. No regresso , ao sétimo dia, era tanto o mar e o vento que, uma hora após ter entrado a barra de Esposende, quatro pescadores se perderam no mar e um cargueiro encalhou nas imediações. O relato desta viagem foi publicado no periódico “El Ideal Galego” de 14 de Janeiro de 1939. Ao que tudo indica fez esta viagem em solitário, pois na carta que escreveu ao real Club Náutico da Corunha, relatando o feito, não menciona outro tripulante.

Agradecemos a Tito Gomez as informações preciosas que nos tem fornecido, entre elas o artigo de jornal referido e a fotografia que publicamos, de Andorinhas rodando a bóia, numa regata na Corunha, por volta de 1935.


Tuesday, October 12, 2021

Uma Regata com quinze anos. Plena de vida.




Dia 2

A décima quinta edição da regata cenário, Clássicos da Vela Ligeira, ocorreu nos dias 2 e 5 de Outubro e resultou em mais uma edição bem sucedida. Largaram as embarcações do Carregal, rumo ao cais da Tijosa, passando junto à ponte da Varela e atracando no cais do Puxadouro, em Válega. Participaram seis embarcações, dois Vouga, dois Andorinha, um Snipe e uma embarcação da classe Sail Horse e ainda uma embarcação de apoio à regata e à comissão de regatas.

O dia estava cinzento e de vez em quando choviscava, mas a disposição era boa e animada durante os preparativos, que se iniciaram logo por volta das dez da manha.

Os velejadores, desde os mais experientes aos mais verdinhos incluíam duas estreias absolutas na vela, A Elvira e o Afonso. Para eles as condições não eram as melhores devido á chuva e aos constantes bordos...


Percurso da regata

Largámos em bolina, vento  Sul de 10 nós, céu cinzento e alguns chuviscos, a linha de largada colocada perpendicularmente ao Cais da Pedra, Pedro Silva e José Lemos nos procedimentos correspondentes, desta vez limitados a sinais sonoros. Logo no início se destacaram o Melody e o BéBé, Andorinha e Snipe, logo seguidos de muito perto pelo Zinda e pelo Andorinha campeão em título com Miguel Lopes e Ricardo Malaquias.

 O "Aventura" largou com quase um minuto de atraso e ainda mais tarde saiu o Almejo, da classe Sail Horse, pois foram necessárias algumas afinações de última hora, a tripulação não conhecia bem a embarcação e já em cima da hora faltou um moitão, e tivemos que encontrar uma peça substituta.  

 Iniciámos a arte de velejar com o vento pela proa e contra a maré que subia o canal, e encontrámos por isso muitos baixios... e muitos encalhanços. Dadas as condições de vento deveriamos ter largado meia hora mais tarde. 

Já no Areínho o Melody se destacava, com o Bébé ainda perto, mas de facto notava-se um bom andamento deste Andorinha, com o Nuno Lopes e o Marco Prior conquistando avanços, bordo após bordo. No estreito a frota distanciava-se, o andamento do "Andorinha" 7  não era o melhor, o Aventura tentava aproximar-se da frente mas não progredia muito,  o Zinda ganhava terreno ao Bébé, o Melody estava imparável e seguia já com bom avanço. Na rondagem da bóia na Ponte o Zinda passa para segundo, seguido do Bébé, do Aventura, do Andorinha 7 e do Almejo que se tinha atrasado bastante. Daqui até ao cais da Tijosa foi sempre am pôpa, bom andamento, o céu "azuleava" e o tempo ficava mais seco e luminoso. Terminou a regata com o Melody a sagrar-se campeão da classe Andorinha, o Zinda ganhando nos Vougas, o B´bé em terceiro, seguindo-se o Aventura, Andorinha 7 e Almejo.

Velejámos até ao Puxadouro, entrando de vento em pôpa no canal, impunham-se manobras cuidadas na atracagem e amarração dos barcos. Tudo correu dentro da normalidade. 

"Zinda" após a largada, com a Joana Paião, a Teresa e a Carla, que vieram de Lisboa para a regata.












O "Bébé" na perseguição do "Melody"























Seguindo o caminho dos flamingos...










Zinda aproxima-se...






Melody de vento em pôpa

Já no cais do Puxadouro, arrumando o velame e palamentas. 


A chegada do Almejo, Com Rui Bastos, António Regedor e Afonso Marmelo, uma estreia na vela e na Ria, 


"Comandante" Vasco Xichorro, piloto de aviões e navegador apaixonado da vela








Elvira, um batismo na vela... parece que correu bem apesar da chuva.




Troféus, cerâmica da olaria "O caco"



Os campeões, o armador e o sr. Presidente da Junta de Freguesia de Válega, Jaime Almeida, personagem muito popular e respeitada, que teve nesta entrega de prémios talvez o seu último ato neste cargo autárquico. ( atingiu o limite de mandatos)




A tipulação do Zinda recebendo o primeiro lugar em Vouga e o segundo da Geral e o sr. Vereador Ruben Ferreira, em representação da Câmara Municipal de Ovar.

A tripulação do Bébè, Jorge Guedes e Vasco Xichorro, primeiros em Snipe, terceiros na Geral





Colaboradores e convidados...



Dia 5

PARTIDA PARA O CARREGAL

Largamos com muito bem tempo depois de um almoço na Cenário, passeio/regata em condições excelentes para a vela. Tivemos um convidado especial, o Francisco, que demonstra evoluir muito depressa na arte de velejar. Uma bela jornada de vela, com alguns convidados a bordo, pois o dia estava de feição. Chegámos ao Carregal já com o sol poente... 

































 (As fotos do dia 5 são da Joana Paião, não sei quem nos enviou as outras fotos.)


Wednesday, August 11, 2021

 Por vezes chamam-lhe azar. Outras vezes peripécias. Atribulações, também é possível. Podemos ainda especular: fatores perversos...inesperadas ocorrências? Tudo isto e ainda mais, foi o que nos aconteceu no último Cruzeiro da Ria. O 57º. Regata Ovar-Aveiro-Ovar. Um evento que não se pode perder. Tinha o barquinho pronto, O Vouga "Aventura", aparelho do leme restaurado, cabos e manilhas e mordentes e moitões, tudo revisto. Estai, contra-estai, brandais, tudo em afinado estado, tudo firme e seguro. Velas aparelhadas de acordo com o vento que se previa forte no sábado. Uma pôpa, intercalada por largos folgados, seria uma regata rápida e excitante. Estávamos atracados a escassos metros da largada, preparados, aguardando o sinal de advertência. Sobe a bandeira, soltamos a amarra. Uma primeira rajada forte, orça, progride, virar de bordo. Algo se passa com o leme. Estou sem governo e no meio das frotas de sharpies e vougas... consegui, ainda não sei muito bem como, só com as velas, atracar de novo sem perigos de maior. Confirmo que o leme não existe. O que se terá passado? Pedimos reboque até ao guincho, impunha-se verificar o problema. Descer velas! Chegados ao guincho, o empregado do clube tinha outros afazeres. Não estava disponível. Plano B , Decidimos fazer o Cruzeiro no "Melody", que estava disponível e pronto. Classe Andorinha, a navegar desde 1944. Subir velas, preparar tudo a preceito, lá vamos nós, os últimos da regata, já não se viam velas no horizonte. O vento era de facto uma beleza para surfar e planar. Três tripulantes a bordo do Melody", no mínimo 230 kg de marinheiros, controlando as rajadas de vinte e tal nós. Logo que aplicámos o spi, salta um pino do moitão da escota da grande , fica a retranca livre... mas com o "boomjack" a tratar da vela... Nova aflição a bordo, controlada pelo uso de uma manilha da caixa de emergências. Problema resolvido. SEMPRE A SURFAR, cruzámo-nos com um sharpie 12 que regressava a reboque, após viranço. Estai pintalgado de negro, o lodo da Ria a manifestar-se nas velas... Nós prosseguiamos, patilhão a meio, pôpa e largo, mais largo que pôpa, e já estávamos na Varela. Solta-se o boomjack, (em português é "burro") mais um cabo que cede, fruto da tensão necessária para aplanar a vela. Mais frenezi a bordo um cabo que se recupera do saco das emergências. Problema resolvido. Passámos a Ponte a maré desce, o Vento cresce, nem o james bond andaria assim. Optamos pelo canal junto à Torreira, mas desde logo temos que ter em conta o rumo após o Monte Branco, ( uma praia na Torreira, não confundir com os Alpes), fugindo à Pousada, para nascente, para nascente, pois ali existem uns baixios muito muito traiçoeiros, assinalados por uns ramalhos bem grandes colocados estrategicamente no enfiamento do baixio. A balizagem possível meus caros. Não fossem os "Praticos" e umas viagens frequentes naquelas águas e não sei como seria pois as sondas nestas circunstâncias quando avisam já éra... e nós não temos sonda. Procuro os ramalhos, a balizagem que nos indica o baixio. Lá os encontro, muito a sotavento. quero arribar mas temo a cambadela, vou sempre arribando, arribando mas não chega . De súbito passo entre os ramalhos, , o patilhão salta, o leme treme, quase parámos, o fundo não é lodo é areia dura. Sente-se o fundo no fundo do casco. Vem uma rajada, o pião da retranca não aguenta, penso que a retranca partiu. Alvoroço. Descer velas? Nem pensar. Foi o pião que partiu? Vamos recorrer mais uma vez ao saco de emergência. Em andamento, pois o vento não dava tréguas, orçamos o mais possível, a vela a bater, mas não demasiado, pois seria impossível segurar a retranca, com artes mágicas o Carlos com um cabo de 4mm ia envolvendo o mastro e a retranca num novelo que os abraçava, firmes. E prosseguimos. Com capacidade de manobra, com a vela grande ligeiramente "desfocada", tudo a postos, progredíamos, agora com a presença de um pneumático que ia dando instruções para a comissão e juri da regata... Estavamos em últimos, mas não muito pois já se viam alguns veleiros e surpreendentemente chegámos 20 m depois de um Vouga, que tinha virado... e não é pêra doce continuar uma regata depois de um viranço, tratando-se de um Vouga... Chegámos à baía de S. Jacint sur Mèr, e como é costume, no final chegam sempre mais angústias, as piores pois já estamos cansados e com o cais à vista... Chegamos, arrumamos o barquinho, fizemos uma revisão da matéria ocorrida e prontos para o regresso no dia seguinte. Calmo, muito calmo... Fizemos umas excelente regata no dia seguinte.

Sunday, July 04, 2021

A VER VAMOS


Uma obra cinematográfica em rodagem na Ria, nesta vasta ria em transmutação permanente, ela própria personagem omnipresente nos cenários, nas pessoas, na ação. Uma obra cinematográfica baseada na obra literária de um escritor que bem conhecemos, dramática e de um tempo já distante, mas também de hoje e agora, "me too" dos anos 50, outras redes sociais, ou não estivéssemos em território de pescadores e de peixes, nós, os peixes que nos deslocamos no tempo fluido e profundo cruzando continentes entre as canízias e os esteiros, navegações incertas em espaços infinitos, pela noite dentro. 

Raul Brandão é chamado à liça, convocado para co-refletir nos espelhos de água as imagens construídas com partidas e chegadas, neste e naquele cais, os cais dos nossos encontros com a vida, portos imprevistos que nos surprendem cada dia, cada vez mais. 

Não é a pesca, não é a apanha do moliço nem os moliceiros, nem é a arte xávega e as transformações sociais decorrentes da industrialização tardia em pleno sec. XX. Não sei se da estética neo-neorealista se trata, mas desconfio que andará por ali um certo dramatismo social, entre o teatro da vida e uma paisagem dura e inacessível, desafiante, a paisagem mítica das capelas e igrejas de beira Ria, os milagres e mistérios das imagens de santos e mártires que surgem nas ribeiras, entre-águas, nos golfos, nas redes dos pescadores. Não sei se será disto que trata o filme, provavelmente não, a ver vamos. como diz o invisual, também cego, ávido de luz e ação. 

Um "Bando à Parte".











 

Tuesday, June 29, 2021

O voo da Gaivina do Ártico. Ternabout.

Terá sido a Gaivina do Ártico, ave resistente de voo incerto e errático, que está na origem do nome desta embarcação da classe "Drascomb". 
De origem inglesa, descendo até Lisboa talvez nos finais dos anos 70 ( sec. XX), por ali permaneceu largos anos... "Ternabout".
Em 2016, eventualmente com saudades do quadrante Norte, a Ternabout voou até Ovar e aqui permaneceu na CENÁRIO, tendo participados em alguns eventos (poucos) pois a sua condição construtiva (contraplacado) e alguns anos ao sol e à chuva de Lisboa deixaram suas marcas, não bastando simples obras de manutenção para a conservar.
Mudou de proprietário, que resolveu restaurá-la e aqui está, tarefa concluída com esforço e muito trabalho e arrelias várias.
Pronta a navegar, espera-se que em águas honestas e tranquilas.